Sociedade

O "para o melhor pai do mundo" das crianças que não o têm

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É Dia do Pai. Por esta altura, muitos educadores de infância deparam-se com um dilema: de que forma abordar o assunto com crianças que o perderam? Fomos à procura da resposta

 

“Para o melhor pai do mundo”. Quem é pai certamente já leu esta frase nos presentes que os filhos fizeram na escola, carinhosamente, com a ajuda dos educadores de infância e professores. Seja na creche, infantário ou na escola primária, o hábito repete-se de ano para ano. Mas nem todas as crianças têm o prazer de entregar uma prenda ao pai.

 

A conversa – “em grupo, para que haja partilha de experiências” – é o pilar pelo qual se rege. Uma conversa marcada por palavras subtis, de positivismo e desconstrução. Até porque “não se pode ignorar que é Dia do Pai”.

“Os presentes são feitos da mesma forma, mas tem de haver uma conversa mais profunda. Temos de os ajudar a desconstruir o mundo e fazer com que seja natural. E quando uma ferida vem à memória, tentamos relativizar a dor”, explica, em conversa com o Notícias ao Minuto.

"Vamos falar com o pai e ver as estrelas"

Não ignorando, as crianças são confrontadas com um dia de celebração de uma figura que não têm a seu lado, geralmente por motivos pouco positivos. O trabalho de desconstrução cabe, logo, não só aos educadores como ao resto da família.

O conselho da professora Inês Mateus é que, no início do ano letivo, “as mães informem a escola de que a criança não tem pai”. E que não descurem a conversa com o educador. “O melhor é combinar com a mãe o que vamos fazer. Se a criança for muito pequena (pré-escolar), é legítima a opção de não ir à escola no dia em que se fazem os presentes para o pai. Mas na primária isso já não faz sentido”.

Nestes casos, a docente aconselha um princípio que a própria aplica na sua vida pessoal com a filha: “Ela acha que o avô, que já morreu, é uma estrela. E quando é noite vê as estrelas e manda beijinhos ao avô”. “No Dia do Pai, a mãe pode dizer ao filho’: ‘Logo à noite vamos falar com o pai e ver as estrelas. E tu podes mostrar-lhe o presente”, aconselha.

“Nos casos em que um dos progenitores morreu”, alerta, por sua vez, Luís Ribeiro, “tende a haver um sentimento de superproteção por parte da família e até um desequilibro na relação da criança com a mãe”. Mas o Dia do Pai chega até a ser mais doloroso para filhos de pais divorciados, quando um deles vai morar para outra cidade. “É uma experiência traumática. A criança tem o pai ao lado e, de repente, este deixa de lá estar. É-lhe difícil aceitar a distância e que não pode estar ao lado de quem gosta”.

O 'Dia da Pessoa Especial'. Na ausência de pai e mãe

Andreia Matias é educadora de infância numa escola pertencente a uma instituição de solidariedade que acolhe crianças retiradas aos pais. Algumas conhecem os progenitores, mas outras nunca chegaram a conhecê-los porque foram institucionalizadas à nascença. Estas últimas, admite a educadora, “não têm noção do que é uma família, é um mundo desconhecido”.

O assunto é, portanto, tratado ‘com pinças’, mas sem ignorar que o dia 19 de março existe e é o Dia do Pai. Até porque a escola é frequentada por crianças que não estão institucionalizadas e, portanto, moram com o progenitor.

O Dia do Pai e o Dia da Mãe fazem parte do plano anual de atividades. São figuras muito importantes na vida da criança. E na instituição tentamos dar-lhe o máximo de carinho para colmatar essa falha”, afirma Andreia Matias. Mas às crianças que nunca tiveram uma figura paterna ao seu lado juntam-se as que foram retiradas à família durante a infância.

“Estas têm noção do que é uma família e sentem mesmo a falta dos pais, mesmo que estes se tenham portado mal consigo. A propósito deste dia, o que fazemos é explicar as coisas de forma positiva – que têm pessoas ao seu lado para cuidar de si, que os pais não podem cuidar porque não têm casa e comida, por exemplo –, omitindo a parte negativa”, acrescenta.

Mas como explicar a uma criança que é Dia do Pai e se vai fazer um presente para o pai? “O Dia do Pai passa a ser o ‘Dia da Pessoa Especial’, por exemplo. São eles quem escolhe uma pessoa especial a quem queiram dar a prenda. Geralmente, dão-na a uma das funcionárias ou técnicas da instituição”, adianta a educadora.

Fonte: Notícias ao minuto/BA

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