Sociedade

Ferreira esclarece polémica sobre o "Caso 26", levantada nas redes sociais

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A jornalista da TPA, Jerusa Ferreira, uma das mais destacadas actualmente no país, quando o assunto é saúde, defende maior investigação por parte dos jornalistas sempre que estiverem a abordar a covid-19, por se tratar de um assunto científico muito evolutivo e para informarem melhor.

TPA Online - Que opinião tem sobre a cobertura dos mídias angolanos em relação a Covid-19?

J.F. - Uma pergunta complexa… Acho que está acima da média. É complicado avaliar o sector. Acho que temos nos esforçados bastante em busca de informação onde as fontes não fluem.

Digo acima da média, porque os jornalistas angolanos são grandes guerreiros e batalhadores em busca de informação, isso porque em muitos casos é preciso ir a busca de informação, cruzar as fontes, apurar e informar com verdade, apesar que parte deste ofício precisa-se de internet e a mesma no país ainda é caríssima. A internet é uma ferramenta indispensável no ramo e para os jornalistas é fulcral. Eu ainda gostaria de ver mais investigação e que se apurasse a veracidade no caso específico da Covid-19 trata-se de uma doença nova no mundo. Estamos a falar da medicina e sendo uma ciência evolutiva nós os profissionais deveríamos investigar mais para informar melhor. Todos temos a responsabilidade de formar, informar, sensibilizar, investigar e principalmente cruzar as informações para reportarmos com verdade e transparência.

Eu gosto de desafios e todos os dias aprendo muito com a nossa profissão, como jornalista sinto que ainda temos muita estrada pela frente, o importante é não desistirmos nunca!

TPA Online - Entre as suas reportagens sobre a Covid-19, tem alguma que muito lhe marcou? Porquê?

J.F. - Todos os trabalhos chegam a ser marcantes de certa forma, mas a reportagem que mais me marcou até agora foi a da Clínica Girassol, do primeiro caso recuperado no país, se calhar foi por entrar pela primeira vez num centro de tratamento da covid-19. Estava diante de alguém que tinha acabado de se recuperar da doença e era tudo muito novo para mim, senti muito medo de ser infectada, não pelo o paciente, mas sim pelo o ambiente a onde estávamos. Gravamos a entrevista numa área contaminada e a história do paciente foi muito emocionante, pelo os dias difíceis que ele viveu a partir do momento do diagnóstico ao tratamento. Foi um trabalho difícil e ao mesmo tempo desafiador, arriscado e comovente, marcou-me bastante.

TPA Online - Sente grande diferença em realizar o seu trabalho nesta fase, comparando ao antes-pandemia?

J.F. - Sim, sinto muita diferença, estamos em guerra com um inimigo invisível e ninguém sabe o paradeiro do bicho, trata-se de um vírus considerado inteligente, rápido e letal que é o Sars-Cov-2 que causa a doença da covid-19, o trabalho é bastante intenso e a triplicar, requer mais cuidados em não darmos nenhum passo em falso, tanto eu como o meu colega, a vigilância sobre as medidas de biossegurança é redobrada, ou seja, um por todos e todos por um, devo me cuidar para proteger os meus colegas e eles a mim, está ser muito difícil esta nova era pandémica do jornalismo. O momento é desafiador e gratificante ao mesmo tempo, temos um Deus que nos protege a todos.

Somos todos soldados nesta frente contra o novo Coronavírus, atenção redobrada, dedicação e estar mais atenta.

A cada dia que passa surgem dados novos e as pesquisas sobre o comportamento do vírus aumentam todos dias.

A responsabilidade no tratamento das matérias e a sua divulgação é um dado a reter. Como por exemplo, hoje tens nas mãos uma informação cientificamente comprovada e aprovada pela a própria OMS e depois de preparar a matéria para passar de repente a informação é desmentida, já se vinculam outras daquilo que já estava no forno, é complicado. Enfim, a covid-19 está a baralhar o mundo. É tudo muito imprevisível, por isso, devemos ser bastantes cautelosos na divulgação de matérias sob pena de passarmos uma informação errada aos telespectadores. Há muita gente a passar as "Fake News" e a cometer erros na divulgação de notícias falsas e outras a transmitir mal as mensagens, tal como aconteceu com os pronunciamentos de alguns presidentes nas Américas e isso tem consequências graves a saúde pública.

TPA Online - Algum dia sentiu medo ou receio dos lugares que frequenta por força do trabalho?

J.F. - Sim, sinto medo todos os dias, principalmente quando entro nos hospitais, clínicas, laboratórios e centros de quarentenas. Apesar de que, sempre que estou nestes lugares cumprimos rigorosamente com as medidas de biossegurança. Estamos perante um vírus bastante contagioso e letal. Tenho filhos e não consigo abraçá-los quando os vejo, dói a alma.

Quando os filhos perguntam-me quando isso vai acabar. Simplesmente não consigo responder-lhes…Uff, a verdade é que isso não depende de mim nem da minha família, depende de todos nós, só Deus! O mundo tem que se unir contra o inimigo invisível.

TPA Online - Numa reportagem exclusiva feita por você, o famoso "Caso 26" pediu desculpas aos angolanos pelos contágios que esteve envolvido. O pedido de desculpas tem razão de ser? Deve ser aceite?

J.F. - O pedido de desculpas é sinónimo de humildade. E quem o faz tem carácter, teve razão de ser sim. Ele reconheceu que errou e por conta disso envolveu outras famílias que viram sua liberdade retirada por força da cerca sanitária imposta pela Comissão Multissectorial, para o corte de cadeia de transmissão comunitária e além disso outras pessoas ficaram infectadas. Por outro lado, circularam outras informações a seu respeito da qual ele queria desmentir.

Segundo o cidadão Francisco, até uma outra pessoa foi exposta nas redes sociais e em causa estava a imagem e bom nome do mesmo, também queria desmentir e livrar as pessoas inocentes. Para mim foi uma boa acção em conceder a entrevista, teve boa atitude em pedir desculpas e reconhecer o erro cometido.

Devemos perdoar 70 x 7. Quem nunca pecou ou foi imprudente que atire a primeira pedra, por mim, desculpava-o uma vez que o mesmo foi um doente assintomático e quando se é assintomático não sabemos se estamos ou não infectados. daí a chamada de atenção para aqueles que continuam a ignorar as medidas de protecção colectiva e individual. Devemos todos observarmos as medidas de biossegurança.

TPA Online - Ainda sobre o "Caso 26", depois de ser emitida a reportagem exclusiva, alguns telespectadores e internautas mostraram-se inquietos com imagem do mesmo, há quem chegou a questionar a veracidade. Qual é a explicação que se lhe oferece dizer a respeito?

J.F. - As noticias falsas estão presentes no nosso dia-a-dia, com maior incidência nas redes sociais, sim é verdade que houve uma revolta muito grande por parte de algumas pessoas devido a forma como foi vinculada a informação do Caso 26, penso que em causa estava a saúde publica.

A primeira pergunta que um jornalista deve fazer antes de vincular qualquer informação é, qual é a fonte? Esta pergunta remete-nos a uma reflexão de como devemos apurar a veracidade de uma informação posta a circular… Por isso é que contactei a comissão de moradores onde vive o Sr. Francisco para recolher mais subsídios e o MINSA que é a única entidade que nos pode dar mais informação credíveis sobre a covid-19 no nosso país, tudo isso para levarmos aos telespectadores uma boa matéria. Também é verdade que havia pouca informação sobre o Caso 26 assim como outros casos tal como o Caso 31 que por fim gerou mais casos de contágio pelo novo coronavírus e nem por isso deu tanta polémica, penso que este ruído todo que o Caso 26 fez foi devido a forma que foi rotulado. A TPA é uma televisão seria e nós primamos pela verdade e transparência. Além de informar nos trazemos os factos e contra factos não há argumentos. Para os mais atentos sabem que o Caso 26 é definitivamente o que a TPA apresentou e a ministra da saúde confirmou em entrevista a mesma televisão que o Caso 26 é o cidadão que pediu desculpas ao povo Angolano.

TPA Online - Ainda há pessoas que não têm cumprido as orientações para a prevenção da Covid-19 e outras desacreditam, o que tem faltado? É possível inverter o quadro?

J.F. - A ignorância tem sido o maior veículo de contágio por novo coronavírus em todo mundo, em Luanda não tem sido diferente e o facto que algumas pessoas não acatarem com as medidas de biossegurança é a razão da subida de números de casos positivos pela a covid-19 e isso está acontecer em todo mundo.

O aglomerado que é visível se calhar dá-se pelo facto da pandemia não assolar o nosso país como acontece em outras partes do mundo, devemos dar graças à Deus e é preciso não baixarmos a guarda. As medidas tomadas pelo governo angolano até agora foram as mais acertadas. Muito de nós temos feito sacrifícios para conter a transmissão, assim vemos os cidadãos sacrificados no exterior sem puderem regressar por força do encerramento das fronteiras, muitos estão no exterior sem recursos financeiros tudo porque a pandemia pegou-lhes fora de Angola. Muito deles foram de férias e outros em tratamento médico, outros estão em quarentena institucional e assim como os profissionais que estão na linha da frente e outros na segunda linha.

Um grupo de cientistas chineses e americanos, coordenados pela Escola de Saúde Pública da Universidade   Columbia, de Nova Iorque. Em estudo na revista Science, eles mostram que, apesar dos pacientes que desenvolvem a doença serem duas vezes mais contagiosos, os assintomáticos são seis vezes mais numerosos mesmo com propensão menor a infectar outros, acabaram se tornando o motor que move a epidemia, a OMS estava certa quando dizia que os assintomáticos representam 86% dos infectados, como é o nosso caso. Os angolanos são maioritariamente jovens daí a nossa população ter no seu organismo defesas que combatem o vírus sem que eles se apercebam que estiveram infectados e venceram o vírus, talvez seja este o motivo de muitos não acreditarem na doença. Isto está a acontecer em muitos países e por fim pagaram caro com vidas de cidadão com Comorbidade patogênica, ou seja, doenças associadas. estes são os que o vírus não dá espaço. Inverter o quadro de momento que estão as coisas é quase impossível temos rapidamente de mudarmos os nossos comportamentos, não adianta usar máscara na rua para a polícia não prender e multar, mas no bairro convivemos como se de nada trata-se. Prefiro acreditar na conscientização dos angolanos quanto ao novo coronavírus. Espero ver outra postura relativamente ao vírus, este já está entre nós, não quero pensar diferente a inversão da conscientização e das pessoas quanto o vírus.

Devemos estar todos mobilizados na luta contra o novo coronavírus, isso é muito sério e com a subida expressiva de casos nos últimos dias está claro que estamos diante de transmissão comunitária.

TPA Online - O retomar das aulas dividiu as opiniões, o que pensa sobre o assunto?

J.F. - Este é um tema bastante complexo e não me sinto confortável em comentar porque é tudo muito imprevisível e todos temos medo de sermos infectados com o novo coronavírus. Contudo, eu acredito na Comissão Multissectorial que tem estado a trabalhar arduamente sem mãos à medir e se os números continuarem a subir pela negativa acho que não haverá espaço para aulas no ensino primário e secundário pelo menos em Luanda e Cuanza-Norte.

No fundo todos devemos estar cientes das nossas responsabilidades como cidadãos na educação e na formação do homem, todos temos direito de questionar os números e isso tem vindo acontecer em toda parte do globo, talvez pela forma como se faz a gestão dos casos, mas temos que perceber que há critérios definidos pela OMS e devemos respeitar.

Outro problema que se coloca é que temos mais de 50% das escolas em Angola sem água canalizada, mais de 30% sem wc factores que facilitam a disseminação do vírus.

Para garantirmos o retorno às aulas devemos garantir antes a formação e consciencialização de que o vírus esta entre nós e é letal. Por outro lado, temos que garantir que serão observadas as medidas de biossegurança não só nas escolas como em todas as instituições, porque da mesma proporção que o vírus saíra da escola para as nossas casas também poderá entrar nas escolas por meio de outros organismos.

A verdade é que temos que enfrentar o vírus com muita sabedoria e paciência sempre observando as medidas de biossegurança com rigor. Diz o velho ditado que "o seguro morreu de velho", vamos ter fé e esperança que tudo irá ficar bem. Paciência sempre.

TPA Online - Fora as desvantagens já conhecidas, a Covid-19 trouxe alguma mudança benéfica as sociedades?

J.F. - Depois desta pandemia o mundo não será o mesmo, ficamos todos a saber que com um simples gesto da lavagem das mãos evitamos várias doenças, passamos a valorizar mais a nossa saúde, passamos a dar mais valor a vida e a família e muito menos nas coisas, pensávamos que era só termos dinheiro na conta que num estalar de dedos estávamos logo a embarcar para tratamento no estrangeiro, hoje a covid-19 mostrou-nos que cada um deve ser tratado no seu país, razão esta que estamos todos confinados, por isso, quando isso tudo terminar o nosso sistema de saúde público sairá mais fortalecido, já temos um grande ganho, antes da pandemia Angola contava somente com menos de 100 ventiladores para cerca de 30 milhões de habitantes. Hoje já temos mais de 600 ventiladores entre eles os invasivos e não invasivos, os mesmos servirão para acudir os cuidados intensivos nos nossos hospitais, então, há mal que vem para o bem. Antes Angola não tinha capacidade para processar amostras de várias patologias, hoje Angola já ganhou aparelhos modernos de laboratórios utilizados nos Estados Unidos da América e Europa. Ainda com a descoberta de um laboratório instalado há vários anos na Zona Económica Luanda-Bengo, iremos dar mais valor a vida e nossa saúde.

Todos nós percebemos que a globalização traz coisas boas e outras menos boas, por isso, quando a casa do vizinho pegar fogo coloca a sua de molho porque estamos a poucas horas de um continente ao outro.

TPA Online - É sabido que a Covid-19 apanhou todos os países de surpresa, ainda assim, sente que alguma coisa esteve em falta nas medidas e acções?

J.F. - Angola esteve muito bem nas medidas e acções. Fechou-se as fronteiras na hora certa, instituí-se a quarentena institucional muito cedo, mesmo antes do fecho das fronteiras, o governo agiu bem, de início vimos que a economia não sobrepôs a saúde e tivemos ganhos com isso. Deu-nos um avanço para nos organizarmos com material de biossegurança e garantir a formação de quadros angolanos na preparação contra a covid-19.

Temos que olhar para a saúde com maior atenção, afinal afecta a todos, como humanos que somos temos que olhar mais para o nosso planeta e dar mais valor a biodiversidade. Estamos a invadir o território de outras espécies, isso é grave!

O direito a informação faz toda a diferença, o sector tem estado a comunicar bem, outros países não souberam comunicar com os seus concidadãos, a politização e má gestão de informação que muitos estados levam acabo tem contribuído para o descalabro, embora seja muito cedo para tirarmos ilações, mas é visível que muitos presidentes foram postos à prova e falharam nas medidas impostas. Uns tinham dois pesos na balança, salvar a saúde ou a economia. Angola tinha três pesos na balança, o pior foi a queda brusca do preço do petróleo no mercado internacional fez toda a diferença, e mesmo assim o governo angolano tomou medidas assertivas muito cedo. Angola está na luta contra o novo coronavírus como em todo mundo, mas é Angola que está em várias frentes, nós aqui estamos em muitas frentes, temos a malária que é a primeira causa de mortalidade, temos o VIH -SIDA, temos a pobreza, a mortalidade materno-infantil, temos neste momento a lepto-espirose, a Dengue e Chikungunya, temos algumas suspeitas de febre-amarela, o câncer e outras patologias que vivemos com elas todos os dias e ainda temos na vizinha RDC o Ébola. Mas Deus está connosco.

TPA Online - Fale-nos sobre o impacto da cobertura da TPA nestes tempos de Covid?

J.F. - Acho que o impacto é grande e positivo principalmente nesta fase da pandemia, a nossa TPA tem servido bem Angola e os angolanos, formamos e informamos com verdade, informação com credibilidade porque primamos pelo respeito e temos fontes seguras, temos colegas a trabalhar sem medir esforços, um deles é o meu operador de câmara Artur Gil que está ausente da familiar a mais de 4 meses sem esquecer os editores de imagem, Francisco Torres, que esteve nesta luta durante um mês, agora com o incansável Yanick Capitão, os coordenadores, a produção os nossos chefes e colegas que são importantes na realização de um produto final que chega a casa dos cidadãos com qualidade. Por isso é que a Marktest distinguiu a TPA como o melhor órgão de informação no País. Penso que estamos a servir da melhor forma a todos os contribuintes deste país, e queremos fazer mais e melhor se nos darem oportunidade chegaremos à excelência. Deus nos ama e vamos vencer esta etapa difícil das nossas vidas.

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