Sociedade

Feira do Emprego junta multidão e mostra cenas inusitadas

dd

Uma movimentação incomum chama a atenção nas ruas que dão acesso ao Centro de Conferências de Belas, localizado no Futungo II, em Luanda.

A fila, com mais de um quilómetro, estende-se para além das imediações. Os carros circulam a um ritmo lentíssimo. Engarrafamentos dessa dimensão são inéditos na área, famosa por acolher congressos e outras grandes actividades do partido no poder, além de cerimónias de outorga de diplomas académicos e eventos cuja solenidade exige espaços enormes. Nada se compara ao ambiente vivido ontem, no primeiro dia da Feira do Emprego, promovida pelo Instituto Angolano da Juventude, afecto ao Ministério da Juventude e Desportos.

A Feira enquadra-se no âmbito da materialização do Programa Geração Futuro, inserido no Programa Integrado de Promoção do Desenvolvimento das Competências dos Jovens Angolanos. Dados avançados pela ministra da Juventude e Desportos, Ana Paula do Sacramento Neto, indicam que a Feira deve criar mais de mil oportunidades de empregos directos, bolsas de estudo internas e externas e formação profissional para jovens.
O termo empreendedorismo, muito em voga na actualidade, consubstancia uma das principais divisas da Feira. Anunciada em alguns meios de comunicação social, o acontecimento teve ampla repercussão nas redes sociais. Esse factor pode ter contribuído para o que se poderia denominar por “ampla mobilização de jovens”, que protagonizaram a incomum movimentação no Centro de Convenções de Talatona e arredores. O Jornal de Angola constatou no local que os primeiros candidatos a uma possibilidade de emprego começaram a chegar ao local por volta das 5 da manhã.
Prevista para abrir às 9, a Feira, que funcionou num pavilhão anexo à sala principal do CCB, só abriu as portas passada mais de meia hora do período anunciado. Nessa altura, a ordeira bicha, que se perdia algures no bairro do Futungo II, já se tinha desmembrado. No interior do CCB, contavam-se cinco filas de acesso ao pavilhão, onde as potenciais “benfeitoras”, estimadas em 38 instituições, esperavam pelos currículos. A Feira mal tinha começado e o local já estava “assaltado” pela confusão, desordem ou balbúrdia. Curiosamente, alguns dos sinónimos que o dicionário atribui à palavra feira.
Pouco depois das 10h30, o previsível “instrumento de apoio ao primeiro emprego, auto-emprego e empreendedorismo”, conforme a designação oficial, era palco de enorme agitação. Enquanto nas ruas adjacentes ao CCB registava-se um intenso vai e vem de jovens, maioritariamente portadores de envelopes castanhos nas mãos, no pavilhão os acontecimentos desenrolavam-se a um ritmo imprevisto pela organização. Os discursos oficiais foram abreviados, devido à pressão de quem buscava uma oportunidade de inserção no mercado de emprego.
Movidos pelo desespero gerado pela longa espera, muitos jovens forçaram a entrada, tendo sido necessária a intervenção da Polícia Nacional para reposição da ordem. As duas ambulâncias do INEMA destacadas foram accionadas. A equipa de reportagem do Jornal de Angola destacada no local contabilizou pelo menos quinze desmaios, números não confirmados devido à grande ocupação dos técnicos de saúde. Alguns jornalistas conseguiram sair do recinto sacudido pela azáfama, por se terem encostado à equipa da ministra. Chegaram a circular rumores de mortes, entretanto, prontamente desmentidos. A jovem ferida na testa, aparentemente sem gravidade, foi transferida para uma unidade hospitalar.

Cenas inusitadas

O dia em que vários milhares de candidatos em busca de vagas disponíveis deslocaram-se em massa ao CCB deu a ver cenas inusitadas. Fala-se por alto na presença de cerca de cinquenta mil jovens. Mulheres visivelmente grávidas não se coibiram. Mães com bebés pequenos também foram à luta. Se calhar, não tinham com quem os deixar. Ou, quem sabe, aspiravam a um lugar numa eventual lista prioritária, semelhante às existentes em diversas instituições. Nem as mães nem os jovens com deficiências portadores de cadeiras de rodas tiveram atendimento diferenciado.
A Jornada para inserção de jovens no mercado de trabalho, muitos deles com licenciatura e valências relevantes, prossegue hoje. Até que ponto o cenário dantesco se vai sobrepor à almejada visão de fomento do emprego e investimento em jovens empreendedores, é ainda uma incógnita. O certo é que vários pares de sapatos continuam dispersos no local à espera dos donos.

 38 empresas e instituições de bolsas de estudo

Organizado pelo Ministério da Juventude e Desportos, através do Instituto Angolano da Juventude, a 1ª Edição da Feira de Oportunidades de Emprego, Estágio e Formação Profissional teve a participação de 38 empresas expositoras e instituições de bolsas de estudo.
Empresas como o Banco Angolano de Investimento (BAI), Nossa Seguro, TVCabo, Sonagol E.P e o Ministério do Ambiente, entre outros, estiveram na tenda do Centro de Convenções de Belas (CCB), para registar candidatos e expor as oportunidades.
A Embaixada Britânica também marcou presença e apresentou o seu plano de bolsas de estudo para Angola. Actualmente, 101 estudantes concluíram o mestrado. Para este ano, estão disponíveis 20 bolsas.
A ministra da Juventude e Desportos, Ana Paula do Sacramento Neto, considerou a Feira de Emprego uma das acções para o cumprimento das metas do Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN), que espelha maior inserção dos jovens na vida activa.
Sendo a maioria da população angolana jovem, representando mais de 60 por cento, a ministra lembrou que o jovem só pode estar na vida activa se tiver oportunidades e conseguir resolver os seus problemas. Para que tal aconteça, acrescentou, o jovem merece um emprego.
“Vamos continuar a acompanhar o processo de selecção dos candidatos apurados no emprego directo e, também, do ciclo de formações profissionais e nas bolsas de estudo internas e externas”, garantiu Ana Paula do Sacramento Neto.
O director-geral do Instituto Angolano da Juventude, Jofre Santos, agradeceu a presença das empresas, principalmente por contribuírem para o bem-estar social da juventude. “Este evento permite que os jovens tenham maior interacção e aproximação com as empresas, sobretudo, com as principais áreas de actuação no mercado interno”, garantiu Jofre Santos.
O gestor sublinhou que um dos objectivos do Executivo é cumprir as metas previstas no PDN e uma das acções é a promoção de feiras, para promover a empregabilidade para jovens.

Entre a ansiedade
e o desespero

A ansiedade e o desespero para a conquista do primeiro emprego fez com que os jovens invadissem o espaço da feira. A ministra da Juventude e Desportos não foi poupada. Alguns jovens seguiram Ana Paula do Sacramento Neto clamando por emprego. No meio da confusão, foi obrigada a retirar-se, antes mesmo do tempo previsto.
Presos na multidão, algumas entidades e profissionais da Comunicação Social só conseguiram sair do local com a intervenção da escolta da ministra da Juventude e Desportos. Delfina Victor, 28 anos, formada em Psicologia pela Universidade Técnica de Angola (UTANGA), foi uma das milhares de desempregadas em busca de uma oportunidade. Lamenta a confusão de ontem e garante que hoje, último dia da exposição, vai voltar a tentar.
Outra jovem, que preferiu identificar-se apenas por Alice, era, ontem, o rosto da decepção. Perdeu os documentos originais e as várias cópias do currículo que levou para entregar. Já Nairene Patrícia, cansada e com um pequeno ferimento no pescoço, de tanto lutar na multidão, conseguiu entregar os documentos em duas empresas. Agora, só espera que a luta tenha valido a pena.

JA/TPA

PUBLICIDADE
voltar ao topo

o tempo