Política

Resolver um velho impasse em Gatuna/Katuna

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O Presidente da República, João Lourenço, está desde a tarde de ontem em Kigali, capital do Rwanda, para participar em mais uma cimeira quadripartida, que visa dar solução ao velho impasse que opõe o Rwanda ao Uganda.

Na localidade de Ga-tuna/Katuna, junto à fronteira entre o Rwanda e o Uganda, voltam a reunir-se, sob a iniciativa de Angola, os Presidentes João Lourenço, Paul Kagame, do Rwanda, Félix Tshisekedi, da RDC, e Yoweri Musseveni, do Uganda. 
A reunião dos quatro presidentes africanos foi decidida em Luanda, no Palácio Presidencial da Cidade Alta, no passado dia 2, num encontro que juntou os mesmos chefes de Estado. Com a quinta cimeira quadripartida, Angola e RDC pretendem contribuir na busca de uma solução pacífica e sustentável para o diferendo que opõe Uganda e Rwanda. Este desentendimento dura há muitos anos e contraria a vontade dos povos dos respectivos países, que querem ver a fronteira aberta para as tão desejadas trocas comerciais e o direito de ir e vir.
Livre circulação
De acordo com funcionário sénior do Governo do Uganda, a fronteira está encerrada há quase oito anos, embora houvesse, mesmo assim, algumas trocas comerciais e a deslocação recíproca de um lado para o outro. A situação, lembrou, agravou-se nos últimos oitos meses e sequer é possível a passagem de um e do outro lado das linhas imaginárias da fronteira. O limite é a zona neutra. Dali em diante, nem mais um passo. 
De acordo com o funcionário, os rwandeses podiam ir ao Uganda sem que fosse preciso exibir o passaporte. Mas o inverso, contou, nunca tinha sido possível, num quadro que reclama por solução imediata. 
“Para agravar a situação, o rwandês que for ao Uganda, se for descoberto, arrisca-se a ser preso, o que desencoraja ainda mais essas iniciativas”, notou.
“Queres saber, a mim importa a livre circulação. Esse é um problema que os dois Presidentes deviam rever. Deviam, antes demais, pensar no povo, porque, no final, somos todos nós que pagamos por isso, mesmo que não compreendamos a questão política”, afirma. 
Há, por outro lado, um problema que vai para lá das meras trocas comerciais ou do necessário movimento de pessoas e bens: existem rwandeses e ugandeses unidos por laços sanguíneos, mas dispersos pela geografia dos dois países.
Do lado da fronteira ugandesa, no distrito de Cabale, está a nossa interlocutora que vive anos a fio longe da mãe, irmãos e primos. Ela enfrenta o drama de não conviver com a família que reside a poucos quilómetros daí, no distrito de Kabura, do lado do Rwanda. 
“Estou há alguns meses a falar com eles apenas ao telefone. Gostava muito que tudo isso venha a fazer parte do passado a partir de amanhã. Pago por uma coisa que ainda não percebi por que razão tem de persistir no tempo”, lamenta.
Além de telefone, às vezes vai à fronteira para encontrar-se com familiares, mas isso só ocorre quando envia um recado prévio a acertar a hora.
“Não escondo: sinto a minha vida parada. Sei que o comércio faz falta, mas faz mais falta a família”, lembrou Ainembabazi Charity, 27 anos.
Como ela, existem outras centenas de jovens, velhos e crianças a passar pelo mesmo. A limitação é impiedosa e atrasa o crescimento de ambos os lados.
Na busca de solução para o impasse, já são contadas três cimeiras. A primeira ocorreu a 31 de Maio de 2019, em Kinshasa (RDC). Luanda viria a acolher as outras três: 12 de Julho e 21 de Agosto de 2019 e 2 de Fevereiro de 2020.
Com o aproximar da ci-meira, as histórias contraditórias e difíceis de entender adensam-se. De acordo com um cidadão ugandês, o problema entre o seu país e o Rwanda não ficou resolvido até agora, porque Kigali reclama a anexação de dez distritos, incluindo Kabale e Kisoró. A estes problemas, juntam-se as acusações recíprocas do foro político e, na maior parte das vezes, de espionagem. 
A edição de ontem do jornal ugandês New Visi noticiou uma troca de prisioneiros ocorrida na terça-feira. De acordo com a publicação, o Uganda libertou treze cidadãos rwandeses, entre eles três mulheres. As prisões foram motivadas por alegadas actividades de espionagem. Do lado do Rwanda, 17 pessoas deixaram a prisão.
Gatuna/Katuna
Do lado do Rwanda, está a localidade de Gatuna, zona rural, dedicada à produção agrícola. Katuna está do lado do Uganda e tem um comércio mais vibrante que Gatuna. Além disso, existe também produção agrícola abundante.
Preparativos e expectativa
Gerald Nabaasa é de Cabale e trabalha no Hotel White Horse Inn, situado numa localidade a 20 quilómetros da fronteira. Nabaasa tem esperança em que tudo seja resolvido: “só nos queremos sentir livres. Aguardo por muito da reunião de hoje. Não tenho familiares do outro lado, mas tenho amigos que passam por situações muito desagradáveis. A minha expectativa é que tudo isso fique apenas para o passado”, disse. 
Nabaasa, 25 anos, entende que, mais do que o comércio na fronteira, que, em muitos casos, mais se parece com uma permuta, haja transposição de pessoas. Há banco de um e do outro lado, mas cada um destes, até agora, serve apenas os seus próprios cidadãos. 
Há alguns dias que a zona neutra de Ga-tuna/Katuna tem um movimento descomunal de técnicos de frio, engenheiros, decoradores, paisagistas, electricistas e operadores de máquinas. A necessária simbiose de homens e máquinas, por estes dias, é inevitável, embora haja muito mais de trabalho braçal que propriamente de máquinas. 
Ontem, em meio a uma chuva ininterrupta, os preparativos do local que hoje acolhe a cimeira estavam ainda por concluir. Eram 12h00. As tendas brancas estavam montadas, mas o pavimento clamava por conclusão. Outros equipamentos também estavam em falta. Já ao entardecer, o cenário era bem mais compacto e apelativo. 

“Esta cimeira trará resultados mais palpáveis”
O Presidente João Lourenço manifestou-se ontem, em Luanda, optimista com os resultados da cimeira quadripartida, que decorre hoje na localidade de Gatuna/Katuna, na fronteira entre o Rwanda e Uganda.
“Pelas informações que estamos a receber da equipa técnica, constituída pelos ministros de ambas as partes, Rwanda e Uganda, esta cimeira de Gatuna/Katuna será diferente das anteriores e trará resultados mais palpáveis”, disse à imprensa, no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, antes de viajar para o Rwanda.
João Lourenço referiu que a cimeira de hoje deve dar um "passo importante" que vai permitir aproximar ao máximo da solução definitiva do conflito que opõe aqueles dois países da Região dos Grandes Lagos.
Sobre a contribuição de Angola neste processo, o Chefe de Estado disse que o país está a empenhar-se ao máximo no sentido de aproximar o Rwanda e o Uganda a ultrapassar o diferendo que os opõe.
Além do Chefe de Estado angolano, o encontro junta os presidentes do Uganda, Yoweri Museveni, Rwanda, Paul Kagame, e da República Democrática do Congo (RDC), Félix Tshisekedi.
O Presidente da República regressa hoje a Luanda, depois do fim da cimeira.
Na sexta-feira passada, o Comité Ad Hoc para a implementação do Memorando de Entendimento de Luanda entre o Rwanda e o Uganda reuniu-se em Kigali, para avaliar os progressos alcançados. 
Na abertura da reunião, o ministro das Relações, Manuel Augusto, saudou os avanços alcançados pelo Rwanda e Uganda no quadro da implementação do Memorando de Entendimento de Luanda, assinado em Agosto passado.
Manuel Augusto indicou que os avanços demonstram a “vontade política dos dois países em melhorar as relações bilaterais, nomeadamente, no que diz respeito à normalização da mobilidade e das actividades das pessoas, assim como a livre circulação de pessoas e bens na fronteira comum”.

FONTE:NM/AG

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