Política

Batalha do Cuito Cuanavale definiu o rumo da História

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O boxe tem duas formas de atribuir a vitória final: ou pela via do “Knock Out” (o famoso K.O.) ou pelo somatório de pontos acumulados no final de cada “round” de “pancadaria”. Entre os anos de 1987 e 1988, segundo as diferentes versões conhecidas mais de 30 anos depois, os combates militares que envolveram as FAPLA (MPLA) e as FALA (UNITA), no Cuito Cuanavale, província do Cuando Cubango, também foram decididos ao pormenor.

A historiografia africana regista a Batalha do Cuito Cuanavale como um evento fundamental para o “óbito” do infame Apartheid sul-africano. Esta foi a evolução mais expressiva da última frente da Guerra Fria, um conflito supostamente atípico entre o Ocidente capitalista e democrático, liderado pelos EUA, e o chamado Bloco do Leste, liderado pela URSS, charneira do antigo império comunista, que foi oficialmente desarticulado com a queda do Muro de Berlim, em 1989.
Alega a historiografia mundial que o conflito entre os dois blocos resumiu-se à demonstração de potencial nuclear, a bloqueios económicos e às tensões políticas internacionais na mobilização de apoios. Não aconteceram combates militares propriamente ditos - excepto em Angola, entre 1976 e 1988, com diversas intensidades pelo meio.
Nas chanas do Cuito Cuanavale, deslizaram forças militarizadas angolanas, mas também internacionalistas cubanos, assessores russos (do lado das FAPLA) e militares das Forças Armadas da África do Sul (SADF, na sigla em inglês), pelo lado das FALA. Os sul-africanos tentavam defender o sistema político-económico do Apartheid, que praticava de forma abjecta e descarada a racialização da sociedade, em prejuízo evidente da maioria negra.
O regime sul-africano, que no final da década de 80 estava praticamente isolado e a sofrer pesadas sanções internacionais (ainda que os EUA mantivessem uma atitude protectora), defendia as suas intervenções em Angola e o apoio financeiro e militar à UNITA com a necessidade de estancar a progressão comunista na Região.
Para Bruno Kambundo, professor de História no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), de Luanda, a derrota dos sul-africanos foi um acontecimento que alterou a dinâmica que se registava na Região Austral.
“A Batalha do Cuito Cuanavale foi um ponto fulcral para o fim do Apartheid. Aquele regime era um empecilho para todos os países e a sua extinção permitiu uma espécie de reencarnação da SADC”, disse.
Segundo Ronnie Kasrils, histórico membro do Partido Comunista da África do Sul (SACP), do ANC e antigo ministro da Inteligência daquele país, “após as batalhas no rio Lomba, em Novembro de 1987, ocorreram as batalhas de 13 de Janeiro e 14 e 15 de Fevereiro. Em 23 de Março de 1988, as SADF lançaram o seu último grande ataque ao Cuito Cuanavale”.
Para Kasrils, em artigo publicado em 2013, na revista socialista “Monthly Review”, uma escola de pensamento apoiada pelo ANC, Cuba, Angola, alguns movimentos de libertação e vários historiadores “defende que a entrada da África do Sul em Angola foi influenciada pela intenção de resgatar a UNITA”.
Argumenta-se também que as acções da SADF, anteriores a 23 de Março de 1988, são uma evidência da sua determinação em chegar à pequena cidade da província do Cuando Cubango.
Nas palavras do coronel das SADF Jan Breytenbach, citado por Kasrils, “morreram muitos soldados da UNITA naquele dia” e “todo o peso do fogo defensivo das FAPLA foi atirado às SADF”. Nas batalhas anteriores, as FAPLA tinham sido obrigadas a recuar para o Cuito Cuanavale e foi o apoio cubano que permitiu a reorganização das forças.
A segunda escola de pensamento sustenta que os militares sul-africanos tinham objectivos limitados: deter as FAPLA no Cuito Cuanavale, impedir que a pista fosse usada pela aviação angolana e depois recuar estrategicamente, com a intenção de travar a ofensiva rumo a Mavinga e à Jamba, a fortaleza da UNITA.
As negociações entre Cuba, Angola e África do Sul tinham começado em Londres, no início de 1988, e continuaram, em Maio do mesmo ano, em Brazzaville, no Congo e no Cairo, no Egipto.
Nessa época, o Governo sul-africano já havia reconhecido a mudança política na Rússia e o fim da guerra fria, factos que enfraqueciam o regime sul-africano, porque o Bloco do Leste caminhava para a extinção. Esta realidade, curiosamente, também pressionava o MPLA a concretizar mudanças no regime de partido único e de economia centralizada.
O general Jannie Geldenhuys, chefe das SADF, declarou que a batalha mais importante da campanha foi quando os cubanos foram derrotados no rio Lomba, conta Ronnie Kasrils.
“Mas o teste final neste debate contínuo é o resultado - o fim do apartheid”, defende Ronnie Kasrils, no artigo de opinião.
“Embora as negociações pós-Cuito Cuanavale também tenham concordado com a retirada das tropas cubanas de Angola (com a implementação do Acordo Tripartido, assinado em Nova Iorque, em Dezembro de 1988) e a transferência dos campos militares do ANC para o Uganda, isso não foi um retrocesso, à luz da enormidade dos ganhos estratégicos”, defende o político sul-africano, neste momento com 81 anos.
Já Abílio Kamalata Numa, comandante militar e membro da UNITA, que falava aos jornalistas, no dia 19 de Março, sobre a data de libertação da África Austral, insistiu que a celebração é uma “mentira histórica” do Governo, que a impôs a alguns países da região.
“A celebração dos processos de desenvolvimento de Angola e a libertação da África Austral foi atrasada pelo envolvimento do MPLA com as forças internacionalistas”, observou, salientando que a UNITA tem uma abordagem “completamente diferente” sobre o que se passou na famosa batalha.
“A grandeza da Batalha do Cuito Cuanavale residiu nas consequências políticas que produziu, ao ter permitido desbloquear a aplicação da resolução das Nações Unidas 435 de 1978, com o Acordo de Nova Iorque, assinado a 22 de Dezembro de 1988, na sede da ONU, pelos Governos de Angola, Cuba e África do Sul”.

O legado
A juventude angolana tem vontade de falar sobre história, sobretudo dos acontecimentos que trouxeram o país até à Dipanda e, posteriormente, ao conflito armado e à paz definitiva, em 2002. Mas não é fácil ter acesso aos documentos, testemunhos e pesquisas sérias sobre os eventos.
“Há uma necessidade premente de cruzar as diferentes fontes de informação sobre a batalha. Ao mesmo tempo, ainda não temos um acervo bibliográfico de qualidade, numa altura em que as novas gerações aumentam o interesse por estes acontecimentos”, conta Bruno Kambundo.
O historiador defende que é preciso ter cuidado para não confundir “memória com legado historiográfico”. “Precisamos de reforçar a investigação sobre o tema e o financiamento às pesquisas científicas relativas à História do país”, considera.
Por outro lado, os pesquisadores também precisam de incentivos. Em Angola, o Ministério da Cultura tem feito algum esforço para divulgar informações sobre a Batalha do Cuito Cuanavale.
“Mas ainda é necessário abrir os arquivos que ainda estão fechados, preparar novas abordagens e novas perspectivas, para trazer uma história dos eventos que seja aceite e que tenha o respaldo da sociedade”, explicou Bruno Kambundo.
Sobre as abordagens à data comemorativa em cada país da Região, é necessário perceber como os diferentes Estados enquadram a efeméride. Neste momento, só é feriado em Angola.
“Mas esta não é a questão essencial. A batalha não foi um problema apenas de Angola e os outros países podem ter uma forma diferente de abordar o assunto, ao organizarem eventos de debate, palestras, há muitas opções para festejar”, disse Bruno Kambundo.
Para além do caminho aberto para o fim do Apartheid, na sequência do Acordo de Nova Iorque, a Namíbia concretizou a sua independência da África do Sul no dia 21 de Março de 1990, outro marco na historiografia da Região Austral.

Fonte JA/BA

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