Ciência

50 por cento dos seropositivos deixam a medicação por falta de condições

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Falando ao Jornal de Angola, sexta-feira, no final de um seminário sobre feitura de projectos, dirigido aos pontos focais da ANASO espalhados pelas 18 províncias, António Coelho sublinhou que 90 por cento das pessoas a viver com a doença, em Angola, são vulneráveis, condição que os impossibilita de se alimentar com regularidade.


“Quer dizer que em cem pessoas que começam a terapia anti-retroviral, no final, apenas 50 terminam”, frisou.
O activista cívico explicou que pelo facto de os fármacos serem muito fortes e, às vezes, por não terem o que comer os doentes desistem do tratamento. Aliado a isso, prosseguiu, está o facto de haver rotura no stock dos medicamentos e a distância entre o hospital e os doentes. António Coelho referiu que essa situação tem contribuído, também, para o aumento da taxa de abandono da medicação.
“Há pacientes que, para levantar a medicação, têm de percorrer mais de 450 quilómetros e, quando não os encontram, deixam de regressar”, realçou. De acordo com o responsável, esses casos verificam-se em algumas províncias do país.
António Coelho deu a conhecer que Angola tem, nesse momento, uma prevalência de dois por cento, correspondente a 300 ou meio milhão de pessoas contaminadas pelo vírus do VIH. Acrescentou ser muito baixa a cobertura de tratamento, na ordem dos 27 por cento, significando que cerca de 89 a 90 mil pessoas estejam, de um modo geral, a fazer a terapia anti-retroviral.


O director da ANASO disse que o país regista, em média, por dia, cerca de 76 novos casos de infecções e cerca de 38 mortes relacionadas com a doença, também em período homólogo. A faixa mais afectada no país, segundo o activista, vai dos 15 aos 45 anos, mas há uma grande preocupação com os adolescentes e os jovens, dos 15 aos 24 anos, por ocuparem um lugar bastante elevado nessa cifra, representando cerca de 57 por cento dos casos. 
“Esse segmento da sociedade representa o epicentro da epidemia no país”, aclarou. 
Em relação às crianças, disse haver, no país, cerca de 27 mil infectadas, sendo que cerca de 4 mil encontram-se a fazer a terapia anti-retroviral. Referindo-se à taxa de transmissão vertical, António Coelho disse ser muito alta (26 por cento), sendo que em cerca de 100 mulheres grávidas positivas, 26 dão a luz crianças positivas. 
Coelho salientou que, apesar do esforço para a inversão do referido quadro, ainda continua alto.


Contaminação dolosa 
O mais alto responsável da ANASO revelou haver muitos casos resultantes de contaminação dolosa. As pessoas promotoras dessas práticas, de acordo António Coelho, são conhecidas e aproveitam-se da saúde financeira que têm para contaminar meninas na condição de estrema pobreza. 
“Os casos são altíssimos”, salientou.
Disse que recebem, em média, por dia, entre 14 e 15 denúncias de casos de contaminação dolosa e também de violência sexual. Acrescentou que não têm conseguido levar os promotores dessas práticas à barra do tribunal, porque, por razões desconhecidas, as pessoas lesadas retiram a queixa.
Preocupação com o aumento da população


José Carlos Van-Dúnem, director-geral adjunto do Instituto Nacional de Luta contra a Sida (INLS), disse que, embora a prevalência da doença no país seja das mais baixas do continente, sobretudo da SADC, não se deve “sentar à sombra da bananeira”, tendo em conta que a população vai aumentando. O responsável salientou que as crianças de ontem são as adolescentes de hoje, muitas delas já a praticar relações sexuais.
“É nessa franja em que nos devemos bater, para prevenir a doença”, frisou. 
Um outro aspecto apontado por esse responsável e que disse constituir motivo de preocupação é a recolha de dados fiáveis sobre a doença. Com os elementos fiáveis, referiu, vai ser possível quantificar, de forma real, o número de seropositivos existentes no país.
José Van-Dúnem disse estar já em curso a instalação, em Luanda, de um software que vai permitir desenvolver a ficha de notificação dos pacientes. Esse software, explicou, vai impedir a dupla testagem sem necessidade. Se um indivíduo for testado, por exemplo, em Luanda, e, por razões de dúvida, deslocar-se à província de Benguela para fazer um novo teste, o sistema vai alertar que já foi testado antes. 
“Isso vai fazer economizar os testes”, frisou. Acrescentou que o mesmo softwere vai ser, depois, espalhado nas outras províncias do país.
Meta “90/90/90”


Ao intervir à margem da marcha contra o VIH, realizada sábado, em Luanda, Sílvia Lutucuta, ministra da Saúde, sublinhou que a intenção do Executivo é fazer com que o país se torne livre da doença até 2030. 
Explicou que essa intenção passa por atingir a meta “90/90/90”, que significa diagnosticar 90 por cento de pessoas a viver com a doença, tratar 90 por cento delas e reduzir a carga viral dos doentes até 90 por cento.
Sílvia Lutucuta exortou os cidadãos a evitarem comportamentos de riscos e, uma vez a doença estabelecida, devem tratar-se, porque, ao fazê-lo, será um ganho para a própria pessoa, que vai ter uma vida mais saudável.
A governante informou que, do ponto de vista de diagnóstico, registaram-se avanços. Salientou que o programa “Nascer Livre para Brilhar”, com uma expansão nacional, está a desempenhar um grande papel. 
“Tínhamos uma prevalência, no geral, de 26 por cento de gestante com VIH e queremos baixá-la para 14 por cento”, acentuou.

Fonte:NM/EG

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